MITRIDATES

Há oito meses não bebo refrigerante algum. Portanto, acabaram-se os estoques de garrafas pet aqui em casa. Elas eram a alegria do Pancho, meu labrador. A sua "bolinha" de diversão diária.


Senti que com o fim das bolinhas ele vem agindo de forma estranha. Adquiriu alguns cacoetes. Agora conversa sozinho e mexe os músculos do focinho como se estivesse sorrindo. Quando vejo essa cena confesso que me dá uma leve sensação de pânico, como aquelas de quando vemos fotos onde aparecem fantasmas ao fundo. Não é nada divertido viver sozinho numa casa junto com um cachorro e acordar de manhã, abrir a porta e vê-lo sorrindo pra você, sem saber por que está fazendo isso, como se estivesse possuído. Possuído por um cacoete.


Porém, com o fim das bolinhas de garrafas pet, conseqüentemente menos exercícios, mais ócio e a obesidade. O Pancho já é quase um Sancho. Até algumas pessoas já confundem o seu nome ao vê-lo se levantar para "dar a patinha".


Há alguns dias quebrei minha regra de saúde e comprei uma garrafona de refrigerante. Pancho não acreditava no que via. O sorriso saiu de sua fuça e tornou-se uma expressão do tipo: uaaauuuuu!!! uiah!!! legaaalll!!! Bolinha! Bolinha! Bolinha! Bolinha! Bolinha! e um entusiasmo frenético de tentar saltar, pular e correr por três metros com a garrafa na boca, se divertindo, sem se cansar. Parecia um esforço sobre-humano... Digo: sobre-canino.


Por fim, um cachorro gordo que pulou por cinco minutos sem parar, de tanta felicidade. Esgotado, morto de cansaço, escorado num cantinho do quintal abraçado com seu brinquedinho de causar emoções como se tivesse atravessado a nado o Canal da Mancha e um coraçãozinho mole batucando a mil por hora de amores e taquicardias.


No outro canto da casa, eu me contorcendo feito uma minhoca rastejante, por horas, agonizando por causa de uma azia monstruosa. Acho que não volto a beber refrigerante mais, não vale à pena!



Valeu a primeira dose do teste de mitridatismo.