A Escolha da Técnica Depende do Material ou o Material Depende da Técnica?




Eu já havia decidido não usar colorização digital em O Sopro Sagrado, A Grande Epopéia,  mas para definir como pintar as cores dessa obra, precisei fazer alguns pequenos, mas fundamentais testes, usando materiais e técnicas de aplicações diferentes em cada um deles. Pouco distintos para muitos, mas para quem já tem certa experiência faz uma diferença que vai do 8 ao 80.

Acima, uma das imagens rascunhadas no sketchbook, como estudo de cena (ângulo, iluminação e movimentos das personagens). Posteriormente a mesma foi para a mesa de luz para ser redesenhada no papel adequado. Abaixo, na primeira cena, temos um papel Fabriano 300g e os traços a nankin, com bico-de-pena e caneta. Já na segunda cena, traços à lápis fine art Cretacolor 2B e HB em papel Montval 300g.




Posteriormente, iria fazer o mesmo teste de cores usando a mesma técnica, apenas invertendo os papéis (literalmente). Mas não precisei chegar a essa segunda opção, ainda bem!

Essa parte do processo criativo com a escolha do material usado, para este trabalho, tem uma importância muito grande, já que essa história em quadrinhos ultrapassará uma centena de páginas, e ao começar a pintar a primeira página a mesma técnica com o mesmo visual estético deve-se manter com a mesma identidade, do começo ao fim, mesmo que para a conclusão de todo o trabalho tudo isso dure mais de um ano e minha arte evolua tecnicamente durante esse período.





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Essa pintura, como teste de colorização para as páginas de O Sopro Sagrado, no papel Montval, numa boa... Ele favorece apenas no custo, mas é o barato que sai caro. Parei por aqui, como podem ver na imagem com a pintura inacabada. O Montval, definitivamente, não é nem um pouco adequado para o que pretendo e com a qualidade que proponho. Automaticamente ele pede retoques o tempo todo, coisa que o Fabriano não faz. Este aceita a tinta exatamente como eu quero que ele aceite e cria, por conta própria, as melhores manchas sem prejudicar em nada o visual do trabalho, e mesmo se eu não as quiser, ele me deixa muito tranquilo para direcionar a tinta e a água sem dificuldade alguma. Já o Montval nos obriga a retocar vários detalhes ou áreas inteiras, várias vezes,e com isso só estragamos as pinceladas já dadas e com resultados não obtidos.

Por fim, está decidido: O Sopro Sagrado, a Grande Epopéia será totalmente desenhado à lápis, com traços em primeiro plano delineados à nankin usando-se de pincéis e bicos-de-pena. Em segundo plano à caneta nankin e muitos traços de pequenos detalhes e planos de fundo deixados à lápis, mesmo. As cores, claro, aquarelas (usarei as inglesas Winsor & Newton Artist - pastilhas - e as japonesas Holbein - bisnagas), pincéis 00, 01, 04 e 20 da Winsor & Newton, Série 7, e Tigre 309 número 10, todos de pêlos de Marta Kolinsky.Talvez, se necessário,os pincéis da Tigre 308 número 2/0 e 05, pêlos de Marta. Já os papéis, Superwhite 75g (resma de gráfica) para os rascunhos e composições de cada página, em grafites marcadores vermelhos e azuis e para finalizar o Fabriano Hold 300g a que melhor me adaptei.

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Durante todo esse processo, eu já sabia que tais materiais eram os melhores e fazem-se necessários, mas quanto ao papel, mesmo sabendo de sua qualidade superior e sua preferência por quase todos os profissionais (tendo também o Arches, Saunders, etc., mas muito rugosos, servindo mais para ilustrações e pinturas, como Plain Air, e não para este caso - só um exemplo de suas funções dentre tantas outras) precisei tirar a prova para me garantir, do começo ao fim deste trabalho, e por fim não decepcioná-los.

Claro que cada caso é um caso e deve ter aquarelista que se dá bem com Montval. Apesar deu mesmo já tê-lo usado, desconheço quem goste. Agora vou cortar, dobrar, picotar, furar e costurar, criar uma capinha legal e transformar os dois blocos A3 de Montval (12 folhas cada) que ficaram de bobagem por um bom tempo em meus arquivos de papéis, em um sketchbook, para estudar. Não será de tudo uma perda e desta forma de muito me servirão.

Retalhos, Rebabas e Bom Proveito!

A única parte boa da sobra de um bom papel para aquarela (muito caros, diga-se de passagem) é que muitas vezes essas rebabas tornam-se pequenos sketchbooks. 

Nessa imagem ao lado vemos um encadernado  desses recortes que sobraram de uma pequena resma de Fabriano 300gr. Desta forma fica muito bom aproveitarmos para estudar e, com isso, até perdemos o medo de molhar à tinta o papel em seu avesso, onde a textura é bem diferente.

Cilada nos Rascunhos Iniciais de O Sopro Sagrado


Este é apenas um quadro de uma das páginas já desenhadas de O Sopro Sagrado. Depois de quase dez anos sem fazer histórias em quadrinhos, muita coisa mudou em meu processo técnico e criativo, minha forma de ver a produção e o desenvolvimento do trabalho. As últimas coisas que fiz de histórias em quadrinhos na vida (lembrando que, quando digo histórias em quadrinhos, não me refiro às tiras) eram de uma outra parte do meu trabalho. Então, vamos fazer assim: vamos celebrar as HQ's de Laz Muniz antes e depois de O Sopro Sagrado, ok?

Na parte técnica, depois de desenhar as duas primeiras páginas à lápis, em papel layout,descobri algo super factual e que muito me aborreceu. Como farei toda a arte da HQ no lápis e com as cores em aquarela, por mais que eu seja experiente na aquarela (não por qualidade, talvez, mas por tempo de trabalho dedicado à técnica) eu percebi que fazer os rascunhos com grafite preta só me atrapalharam, já que não posso ficar rascunhando e desmanchando dez vezes diretamente no papel para aquarela, para não danificá-lo. Assim sendo, faz-se necessário que, primeiro, eu faça os desenhos à parte no papel layout e, depois, redesenhe todos os traços já definidos no papel para aquarela (usarei o Fabriano acetinado) e para esse processo transponho a mesma arte através da mesa de luz. Cheguei onde eu queria: na mesa de luz, usarei vários lápis fine art de diversas gramaturas, com grafite preto. Mas os rascunhos também estão em preto. Na hora da transposição, eu me perdi várias vezes pois não conseguia distinguir aonde já havia passado o lápis, pois era como passar lápis sobre lápis. Entendeste agora o segredo do joguinho dos sete erros?

Feliz que tenham inventado as grafites coloridas!

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Processos à parte, lembrando que todo esse esquema de criação e produção e qualquer passo-a-passo os deixarei acompanhar por aqui, em meu blog pessoal, e lá na página de O Sopro Sagrado, o espaço se destinará apenas para a publicação das páginas oficiais já arte-finlizadas, para que nenhum outro assunto interrompa, atropele ou atrapalhe o entendimento da narrativa e sua fluência.

AGORA É LIMITADA!!!



Pois é, quem já comprou, tá feliz!
Quem ainda não comprou, eu limitei as imagens dessa série. Só quem adquiriu e os próximos 50 compradores terão em mãos as canequinhas com essas duas imagens ilustrativas de minha autoria, em aquarela.

O valor? R$35,00 cada + frete (PAC ou SEDEX). Escreve logo pra mim no e-mail lazmuniz01@gmail.com pra gente combinar, porque tá acabando!!!

A Importância da Qualidade do Material de Trabalho do Artista



Aaah, o sonho de consumo, essa ganância que nos invalida a moral, aqueles dois saquinhos que ficam bem ali embaixo...
Estou falando dos bolsos!

E artista, sabe como é, né? Não compra calça jeans, sapato bacana, óculos de sol de 3 mil reais, relógios, carrão... não vai pro pagodão, não viaja pra lugares tropicais, ensolarados... Não! 

Tá, não pensem em artista que vai pra Trancoso, Arraial D’ajuda, Tomé das Letras... Tô falando daquele que compra livro e depois que compra muitos livros, compra mais, aí quando cansa de comprar livro, compra tintas e mais tintas e volta a comprar livros. Por fim compra uma bicicleta porque fica o dia todo sentado (e bicicleta dá pra se exercitar sentado) porque ele acredita no ócio criativo, mas precisa mexer mais a caveira e se mirar no horizonte.

Então, em vez de um paraíso tropical, lá vai ele: Louvre, em pleno inverno. Pimba! Moscou... Holanda... e dá-lhe livros!

Então compra mais tinta... papéis de 500 reais o metro quadrado, telas, pigmentos, canetas, pincéis e mais livros.

A gente chega na loja de artes e fica igual mulher louca dando faniquito em vitrine de lingerie e sapato! A mesma coisa! E chora! Chora e reclama que tá caro mas sai de lá falido e falando mal do vendedor e da mãe dele! Mas volta no mês seguinte quase querendo apertar as bochechas rosadas do infeliz.

E então chega em casa e não sabe por onde começa, fica igualzinho criança no Natal ganhando presente de tooodos os tios e tias, papai e mamãe... Ah, o artista com novos materiais de trabalho é uma criança numa piscina de bolinhas (na minha época e para a minha geração eu preferiria dizer uma piscina de Playmobill).

E me contento com pouco. Sério, sou bonzinho. Contento-me com muito pouco e só um estojinho de aquarela Holbein e dois pinceizinhos Série 7 da Winsor & Newton vão me fazer feliz por muito, muito, muuuuuiiiitooo...

...muito pouco espaço de tempo.

Quem trabalha com aquarelas como eu sabe muito bem do que estou falando.

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Agora falando tecnicamente e profissionalmente sobre essas belezuras, aqui nesse link Roger Cruz dá uma resumida boa à qualidade das aquarelas (fazendo um bom comparativo sobre a solvência das tintas de mesma marca, mas de linhas distintas: estudante e profissional – e que fazem uma gigantesca diferença, acreditem), e sobre pincéis comenta do Série 7: “A ponta é uma agulha de tão precisa e eles acumulam uma quantidade surpreendente de líquidos.”, coisa essa que, infelizmente, até hoje não descobri em nenhum pincel nacional.

Nesse link, Marcelo Albuquerque faz um apanhado de diversas marcas de aquarelas, pelo mundo, e nos dá um comparativo e um estudo a fundo das diferenças entre elas, dentro de uma hierarquia de qualidade, para estudantes e profissionais, e uma aula super bacana sobre suas transparências, pigmentações, aglutinantes e toda matéria prima.

Sobre o Série 7,  resolvi buscar algumas informações picadinhas por aí na net e juntei tudo aqui nesse resuminho para que possamos entender melhor do que estamos falando:

Winsor & Newton desenvolveram, em 1886, especialmente para a Rainha Victoria, os pincéis Série 7 com o melhor e mais fino pêlo para se trabalhar, de Marta Kolinsky, para o uso com aquarelas por sua maciês, elasticidade, poder de absorção de água e tinta e sua durabilidade.

Considerado pelos grandes aquarelistas e grandes mestres um dos melhores pincéis do mundo. Eu mesmo tenho um nº20 que na época em que comprei custava em torno de 280 reais. Um detalhe que conto só para enfatizar a qualidade do mesmo, já que seu custo benefício é fundamental. O mesmo existe até hoje e nunca quebrou um pêlo sequer (pêlos soltos e quebrados são um desastre à parte para quem pinta com aquarela) e continua o mesmo há 22 anos, desde que o adquiri.

Esse pêlo é extraído do rabo da Marta Kolinsky, que vive no norte da Sibéria, Manchúria e Mongólia. Lembrando que o pêlo de Marta (apenas) vem da Marta vermelha, que não é tão bom quanto os pincéis de pêlos de Marta Kolinsky (foto), que faz toda uma diferença.



Viu só? Então, não dá pra sair por aí pintando com pêlos da crina de cavalo e da orelha do burro. Principalmente porque para o uso da aquarela exige-se extritamente o papel ideal. Mas falaremos dele em um próximo post e convido os amigos profissionais e estudantes da área pra debatermos, difundirmos e fomentarmos mais essas informações aqui descritas.